Capítulo 1 - Alçapão
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O que o acordou foram alguns respingos de uma leve garoa que entrava pela janela. O relógio marcava exatamente três horas da madrugada. Joe se levantou da cama em um impulso estranho ao perceber a janela aberta. Era de costume fechar a janela antes de dormir, e o mais importante, trancar com travas de segurança.
"Quem abriu a janela?"
Algumas coisas já começaram a se passar pela sua mente enquanto olhava para o teto onde havia uma pequena portinha que dava para o sótão. Joe quando criança tinha medo daquele pequeno alçapão.
Com um pouco de receio e com medo de ver algo que não queria, Joe se levantou da cama e cada passo no chão gelado era como se alguém fosse agarrar seus pés com mãos frias e duras.
O parapeito de janela estava molhado e a chuva começava a ficar mais densa. Ele tentou ligar o abajur para clarear o quarto, mas o mesmo não funcionou, era velho e com defeito e sempre estava o deixava na mão.
Com força Joe fechou a janela e a trancou por dentro. Em seguida correu para a sua cama que naquela altura não estava mais quente.
Por um momento pensou em chamar pela mãe no quarto ao lado, mas não tinha mais idade para isso. Justamente por já ser um homem decidiu com bravura que iria até o quarto dela para saber se estava tudo bem.
Joe criou coragem novamente. Já estava perturbado. Destrancou a porta do quarto e saiu pelo corredor escuro. Mas as paredes da casa antiga foram iluminadas por uma luz amarela cintilante. Era a luz do seu abajur que repentinamente se acendeu.
Joe não teve coragem de olhar para trás, pois as coisas que ele imaginaria topar de cara não eram as das melhores. Sem olhar para o quarto iluminado, sentia um calafrio na espinha com a sensação de ter alguém caminhando atrás dele. Naquele instante ele desejava não ter acordado.
A porta do quarto de sua mãe estava aberta. Joe se encostou na parede e colou a cabeça para dentro do aposento. Ele não pode ver sua mãe, mas notou que ela estava dormindo enrolada nos lençóis brancos.
Por um instante tudo ficou escuro novamente. Joe não se moveu. Ele começou a suar frio e seu coração a palpitar. Estava na completa escuridão e não tinha coragem de se virar e voltar para o seu quarto.
Joe nunca foi covarde, mas tinha certeza que tinha fechado e trancado a sua janela antes de se deitar.
Um ar gelado passou pelos seus tornozelos. Por um segundo pensou em correr para a cama de sua mãe e ficar ali mesmo. Inventaria alguma desculpa para ela e se sentiria mais seguro e acolhido, assim como fazia quando criança.
“Mas que diabos é isso!?”, ele sussurrou quando sentiu que a corrente de ar estava mais intensa e fria.
Joe se virou com receio para o lado das escadas. Uma para o sótão e a outra que descia direto para a sala. Pensar que estava em uma casa de mais de noventa anos não agradava ao seu psicológico.
Mesmo no escuro ainda conseguia enxergar o contorno das escadas, o corrimão e o que parecia ser o contorno de um casaco pendurado no alto da escada do sótão.
Aquele não era o momento para ficar analisando o escuro. Joe desviou a sua atenção do casaco e se concentrou na brisa. Ela subia pela escada da sala e atravessava o corredor.
A decisão mais sensata era voltar para sua cama. Mas e se tivesse alguém na casa? E se alguém fizesse algo contra a sua mãe? Seu corpo e sua mente queria voltar para quarto. Talvez estivesse desacostumado com a casa, afinal, estava passando apenas as férias.
Joe então decidiu que iria descer, mas antes precisava colocar uma roupa mais quente e talvez pegar algum objeto para se defender. Ele seguiu até o quarto e se vestiu. Olhou ao redor e encontrou uma tesoura.
Sem ligar a luz para não correr risco, Joe voltou para o corredor. A tesoura deu a ele um pouco mais de coragem, uma falsa coragem. Não sabia o que poderia encontrar ou ver. Mas tinha que fazer esse papel, pois era só ele e a sua mãe naquela casa.
Ainda estava escuro e Joe torcia para que um sinal do sol aparecesse, mas isso não ia acontecer tão cedo, ainda mais com o céu nublado.
Ele já tinha descido dois degraus quando o caminho a sua frente ficou mais nítido. Novamente o abajur do seu quarto se acendeu.
Coração bateu mais forte.
Ele sabia que o objeto estava com defeito, mas a sensação era que alguém estava ligando e desligando.
Apertando a tesoura com força ele desceu até o ultimo degrau lutando com sua sombra que o assustava a cada movimento a frente. Era inevitável o rangido da escada. A casa era muito antiga.
“Escada maldita!”, pensou.
Novamente a escuridão.
O arrepiou na pele era intenso. O sentimento de que veria algo a cada movimento dos olhos era assustador.
Com a tesoura em punho Joe começou a sua vistoria pelas janelas. Todas fechadas. A chuva não estava forte do lado de fora, mas o negro engolia todas as janelas como se não houvesse mundo do outro lado.
Seus olhos estavam acostumados com o escuro. Joe conhecia a casa há mais de 20 anos e podia andar de olhos fechados. Mas algo inesperado aconteceu.
A escada rangeu com força.
Por impulso Joe deu meia volta com a tesoura apontada para a escada.
Não havia nada, pelo menos não havia nada de que ele poderia enxergar. Mas algo fez a escada ranger como se um corpo pesado tivesse pisado em um pedaço de assoalho antigo.
“Mãe...?”, Joe tentou falar, mas a voz quase não saiu.
Novamente a luz do abajur no andar de cima iluminou a escada.
Naquela escuridão a luz era seu único sinal de que tudo estava bem. Joe poderia acender todas as luzes, mas se tivesse alguém na casa isso chamaria a atenção.
Ele estava em um ponto de não saber o que era mais assustador, a possibilidade de ter alguém dentro da casa ou não. A segunda possibilidade era um pouco mais assustadora naquelas circunstâncias.
Joe tomou folego e aproveitou a escada iluminada para voltar ao seu quarto. Mesmo com o sentimento de que deveria olhar todos os aposentos da casa.
Com os pés descalços sentiu que um pedaço da escada estava húmida e tinha certeza que ao descer não estava.
“Mas o que é isso?”.
Estava gelado. A sensação de pisar em madeira fria não era a das melhores. Tudo estava estranho naquele instante e antes que a escuridão voltasse Joe subiu o restante da escada pulando os degraus.
Já em frente ao seu quarto deu uma ultima olhada no corredor. A porta do quarto da sua mãe estava fechada. Decidiu que faria o mesmo com a sua ignorando o fato de que a porta do quarto dela antes estava aberta.
Joe entrou no quarto e após trancar a porta desligou o abajur que dava sinal de fraqueza.
De volta ao escuro e já deitado em sua cama tudo estava como deveria estar. Ainda podia sentir os pés gelados e húmidos da escada como se aquela sensação tivesse grudado para sempre nele.
Joe deu um leve sorriso lembrando-se de suas noites quando criança. Aquele instante o fez lembrar-se das noites que pedia para sua mãe ficar com ele até adormecer, pois tinha medo do escuro. Mas foi no passado e naquela noite ele sentiu tudo novamente.
O sono estava vindo, Joe estava quase adormecendo quando um som de batida o despertou do quase sono. Por um momento ele tentou se concentrar e pegar no sono novamente. Tinha certeza que o que ouviu era algo de sua cabeça, eram seus sonhos chegando.
Mas novamente a batida o despertou. Dessa vez muito nítida. Com toques espaçados alguém batia na porta do seu quarto. Era uma batida leve como se não tivesse a intensão de acordá-lo.
Seu corpo ficou tenso e uma nova sensação que nunca tinha sentido antes tomou conta dele. Sentia que a qualquer momento iria morrer. Nem mesmo quando criança sentiu tanto medo o quanto estava sentindo naquele instante.
Com a cabeça debaixo das cobertas Joe suava frio e tremia. Não escutava mais nada.
O silenciou tomou conta novamente e ele podia ouvir as folhas das árvores do lado de fora chacoalhando. Um tempo curto se passou e um rangido no corredor o chamou a atenção novamente. Joe tinha certeza que tinha alguém no corredor. Era o mesmo som que ouviu na escada, mas dessa vez contínuo como se alguém caminhasse pelo assoalho velho.
Com as mãos ainda tremula ele olhou o seu relógio, eram quase quatro horas da madrugada.
Joe manteve sua atenção no corredor. Após alguns segundos de silencio ele escutou outro rangido muito baixo, mas que ele conhecia muito bem: era a porta no topo da escada que levava para o sótão.
Foi inevitável não pensar na passagem para o sótão que tinha em cima da sua cama. Com bravura, Joe colou a cabeça para fora das cobertas. Sentiu o ar gelado do quarto e olhou para cima.
O alçapão estava aberto.
Capítulo 2 - Bloqueado